E se o sol que reflete nas janelas fosse convertido em energia?

Em Coimbra, há quem veja nas janelas (ou em materiais de construção, como os azulejos) potenciais painéis fotovoltaicos. Em julho, a investigação foi capa de uma importante revista cientifica.


Seis investigadores, três da Universidade de Coimbra (UC) e três da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, estudaram, em colaboração, por mais de um ano, a possibilidade de vir a transformar a luz solar que reflete nas janelas, em energia elétrica. Um estudo que, garantem, pode vir a ser, a curto prazo, mais eficiente e economicamente mais viável que os painéis fotovoltaicos que hoje existem.

Carlos Serpa, químico de 44 anos, foi um dos investigadores que lideraram o estudo. Lisboeta, fez toda a sua formação académica na cidade de Coimbra, tendo, no entretanto, ingressado no California Institute of Technology, o “Caltech”, nos Estados Unidos. Há quatro anos, a par de outros investigadores, criou a LaserLeap Technologies, uma empresa que, explica, “foi criada para aproveitar uma investigação anterior, patenteada, e que, através da tecnologia laser, vem facilitar a entrada de medicamentos através da pele”.

Os compostos de Platina [que vão ser utilizados na janelas] têm uma forte capacidade de absorver grande parte das cores do arco-íris, especialmente a cor vermelha, mais difícil de captar. Esta é uma característica essencial para a transformação eficiente de luz solar em energia elétrica.”
O laser, a tecnologia laser, está presente em quase todas as investigações de Carlos Serpa, e foi também o laser que o trouxe à presente investigação, co-financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. “Foi-nos possível realizar a investigação no âmbito do Laser Lab Europe, que é uma instituição, se quiser, à imagem do CERN, na Suíça, e que agrega os laboratórios de laser de toda a Europa, incluindo o Laser Lab de Coimbra”, explica.

O Laser Lab de Coimbra, garante Carlos Serpa, “está ao nível dos melhores laboratórios da Europa”, e, aqui, pela primeira vez, foi avaliado o potencial de alguns compostos de Platina, através de um método sensível de calorimetria fotoacústica, uma tecnologia única, desenvolvida em Coimbra. Quanto à investigação, explica que os compostos de Platina estudados “são candidatos promissores para aplicações na conversão da energia solar em eletricidade, tendo como grande vantagem a sua capacidade de intensa absorção no visível – e em parte do espectro do infravermelho próximo”. Na prática, se pensarmos nas cores do arco-íris, “estes compostos de Platina têm uma forte capacidade de absorver grande parte dessas cores, especialmente a cor vermelha, mais difícil de captar. Esta é uma característica essencial para a transformação eficiente de luz solar em energia elétrica”.

Para sair do laboratório e passar à prática, o que falta fazer?

Os resultados deste estudo foram considerados “HOT Article”, tal o seu valor científico, e chegaram à capa da edição de julho da Dalton Transactions, uma importante revista de química britânica, editada pela Royal Society of Chemistry. “Há duas ou três revistas que são de topo. Esta é uma revista, diria, média-alta. O que nós fazemos, para que a investigação seja publicada, é escrever o trabalho em forma de artigo, onde relatamos as experiências, defendemos a relevância dos nossos resultados e apresentamos uma conclusão, enviando-o para a revista. Mas, confesso-lhe, não esperava vir a ser tema de capa. A visibilidade para os nossos pares é maior. O melhor de tudo é que esta revista saiu em julho, que é a altura dos congressos, e a revista vai lá estar, as pessoas pegam nela, o que dá maior visibilidade ao nosso trabalho.”

Ler notícia original em: http://observador.pt/2015/08/02/e-se-o-sol-que-reflete-nas-janelas-fosse-convertido-em-energia/